Quando corríamos, fugíamos no tempo apenas para mergulharmos no olhar um do outro, e eu sorria incansavelmente das tuas histórias mirabolantes de guerreiros imaginários que salvavam o mundo da hipocrisia dos que passavam sempre apressados. E nos abraçávamos no campo da bola enquanto eu acertava constantemente entre o aro do cesto, e nem a chuva miudinha que se entranhava nas sapatinhas novas e no cabelo perfeito de quem tinha passado tantas horas em frente ao espelho me separava do teu peito molhado com um “tum, tum” descompassado que me aconchegava a espinha dorsal e a clavícula onde o teu queixo pousava e me sussurrava ao ouvido palavras que eu ainda não sabia escutar. Tu prometias-me algo que dizias durar para sempre, algo que ainda não era amor e que para quem o “para sempre” era longe demais, e a felicidade era assim trazida pela chuva e pelas palavras sem grande significado, embrulhadas por um abraço de laço bem dado que nem o vento frio desapertava. E o quanto me irritara aquele beijo que me roubaras e mal eu sabia que para ti melhor beijo não haveria se não aquele que fora tão desejado e com tanto esforço e coragem conseguido, para mim já era muito, já era demais enquanto para ti fora pouco, um quase nada que te fizera florescer um sorriso de cristal quase eufórico e para alem do feliz nesse teu rosto de menino. Entrelaçávamos os dedos já dormentes do tempo gelado que previa o futuro de uma história ainda por começar e com tanto para dizer e mal eu sabia que aquele beijo fugidio seria o primeiro, o primeiro de muitos que me fariam pairar e levitar sempre envolta pelos teus braços que não me deixavam perder o chão nem tropeçar nele.
*flor*
(231008)

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