Confessa-te aqui, como as senhoras castas que vão todos os dias à missa das oito, mas sem falsas ironias nem mentirinhas de bom pastor. Desvenda o teu segredo constrangedor de fazer corar o Cristo Rei tão pleno de Si. Vá, não sejas pudico e confessa que abriste todos os frascos de perfume da loja mais próxima para ver se encontravas um resquício do aroma da minha pele. E depois de os utilizares a todos, cada um na sua vez te livraste deles com medo que os olhares curiosos descobrissem a parvoíce que era procuras-me noutros frascos tão pouco análogos e sem sabor. Anda. Confessa que à noite quando os braços te envolviam o cheiro te feria as canas do nariz e te ardia como ácido na epiderme enquanto te corroía até à alma. Não era eu que estava nesses frascos desconhecidos com rótulos apelativos para te ludibriar, e mesmo depois de descobrires o erro ficaste inquieto com nervoso miudinho por não desvendares a bruma misteriosa que me envolve. A verdade meu anjo é que a fragrância que sentiste quando me beijaste a nuca e eu estremeci cheia de calafrios de desejo, não se vende em nenhuma perfumaria, não se encontra em nenhum supermercado, só mesmo quando me encostas a ti e percorres a minha pele com lábios de mel e mãos de seda, enquanto me apertas com fulgor e matas por breves instantes uma fome de amor desmedida.
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