Ainda bem, que já cá não estás! Esgueiraste-te pela porta de rua na calada da noite e o dia amanheceu brilhante e leve entrando pelas frestas da persiana. Esfumaste-te, dissolveste-te como fumo a subir pela chaminé e num abrir e fechar de olhos desapareceste da minha vista, já cansada de te ver estendido no sofá da sala. Foi mais fácil do que pensei, não houve gritaria nem choro, não tive que mover um dedo e por mais estranho que pareça, nem te senti partir. Ufa, que te foste embora. Já não suportava o teu mau humor, as críticas e o pessimismo que defines como a realidade que te caracteriza. O nariz empinado, o orgulho e a arrogância que me matavam os dias, enquanto eu fingia que a felicidade me sorria num exercício de paciência infinita que me desgastava a alma e me enchia de rugas precoces. Não sei quando foi que os teus braços afrouxaram no meu corpo apático e o teu sorriso deixou de ser o responsável pelo impulso do bater do meu coração. As tuas crises existenciais asfixiaram-me o desejo de novos horizontes e a tua auto-suficiência egoísta despedaçaram-me os sonhos em pó. Escoou-se-me a vontade de pintar de novo perfeito e imaculado, sem vincos nas calças e nódoas na camisa, como nos primórdios do meu encanto por ti. Constato agora sem o menor esforço que foi fácil, bastou esperar que o tempo despertasse em ti o cansaço de brincar às casinhas tendo-me como boneca principal. Ufa, que já cá não vives. Agora posso chorar a tua ausência à vontade e confessar a todos a falta que me fazes, nas Quatro Estações do ano, em todas as horas do dia.
(1889)

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