Desde que entraste no meu caminho eu passo a vida a tropeçar em ti. Mesmo quando desejo que nada me sejas e que não passes só de mais um espaço no tempo para encher o dia. O vazio enche-se com vislumbres da tua ausência, em cada esquina, em cada olhar sem vida dos que por mim passam. E eu vou deambulando, distraída, na espera morosa que a vontade se sobreponha à consciência, sabendo que não me encaixo no papel reservado, que não sou dotada para estes enlaces duplos e que meto os pés pelas mãos. Anseio-te, no segredo dos deuses, sem eu mesma saber, na sombra inerte dos meus valores morais. Digo aos quatro ventos que é impossível acontecermos e sorrio em tom de disfarce, no vão das coisas que me dizes, nesta nossa história com coordenadas erradas e ruas estreitas, e o nosso receio de nos apanharmos os dois em contra mão. Os teus silêncios abruptos como nós na garganta (que eu já não estranho), o teu passo hesitante, o medo de ficares fora de jogo, e perceberam onde te leva o coração, a sufocarem-te, com o nervoso miudinho e o stress pós traumático de teres chocado contra mim, numa curva apertada. E eu, que sempre me recusei a fazer rendilhados e a passear-me por becos sem saída. Não há nada que não me possas dizer que eu já não saiba, nos nossos devaneios de honestidade, onde as tuas palavras enumeram em mim, a perfeição que eu não encontro, e os teus olhos esmeralda descobrem tudo o que até então só nos sonhos existia. Tu, que tens pressa, andas de Ferrari, cobras e queres a tradução do meu desejo em sílabas e frases feitas. Esqueceste-te que eu sou do tempo dos coches e ainda tenho essa infantilidade de acreditar nos contos de fadas e os seus afins. Não tenho perfil para destruidora de lares, mesmo que neles a felicidade não abunde, e que por vezes pense que te deitas com a pessoa errada, quando saio para a rua e as estrelas já povoam o céu, sabendo que pelo menos temos o prazer de apreciar a mesma lua. Virei-te do avesso, sem nunca sequer ter sentido o teu toque, não me transformei em corpo presente nos teus dias, mas, virei intrusa na tua mente, por isso, aprendeste a manter-te na minha margem, a contemplar-me em terras de ninguém. Eu, que fiquei em ti, como uma marca de água ténue, daquelas que não se apagam, que quase ninguém vê, mas que quem a tem, não a consegue esquecer. Ambos marcamos a nossa posição, eu, neófita nestes jogos perigosos e sem jeito para disfarces brejeiros, e tu, homem de boa índole, a abrirmos espaço e a acumular matéria entre nós, negando-nos ao passatempo das horas conjuntas, nos dias X do calendário. Mas, não é por isso, que ainda hoje quando te digo que qualquer dia desapareces do meu mapa e me apagas do teu, que tu deixas de desafiar a gravidade, colocando o teu pezinho em ramo verde e dizeres em tom de brincadeira, com um sorriso de miúdo traquina: “Qualquer dia apago tudo o que tenho (só) para te ter no meu mapa.”

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Escrevo-te em silêncio para que ouças melhor aquilo que não te digo. Ocultando nestas palavras, o carinho desmedido que te tenho e nelas não cabe, nem que as inventasse de novo tentando acertar em vão no número correcto. Há fantasmas em mim que desconheces, que nunca se pronunciam vivendo num mutismo atroz que me esmaga os sentidos. E eu, não sou só eu, donzela casta e imaculada, mas sou também isto tudo que tu não vês, este excesso de carga, sempre acima do peso desejado e permitido por lei. Por isso, recuo, escapo-te entre os dedos como a água a transbordar da fonte e há recantos no meu corpo que permanecem anónimos ao toque suave das tuas mãos, mesmo quando a minha pele arrepiada quer ficar quase, quase, encostada à tua, desejando não ter mais para onde fugir. É nesse preciso instante que chego por um momento a desmaiar no conforto do teu aconchego e a acertar o batimento do meu coração para ele poder viver no exacto registo do teu. Nesses dias em que me agarras num impulso decidido com a ternura que te envolve cada gesto, sinto o mundo prestes a parar debaixo dos nossos pés, como se lá fora não existisse mais do que o vazio e a nossa respiração sincronizada ditasse exactamente a velocidade da rotação da terra. Tu perdido gentilmente no fundo das minhas costas, com vontade de me eternizar no tempo e eu a gostar de te sentir no deleite dos meus lábios, com um sorriso desenhado a tinta permanente como o perfeito álibi do ‘para sempre’. Já sabias que seria assim, o meu corpo abrigado no teu regaço e a tua aura a agasalhar o meu desamparo. Tens a intuição dos sábios, mas nunca te tinhas cruzado com a teimosia pura e lendária da minha irrealidade. Faltava-te o conhecimento aprofundado do meu mundo, por isso, a arritmia súbita e descompassada da tua alma quando deu de caras com a minha, com aquela mania dela de que é náufraga e de inventar oásis que viram o seu porto de abrigo secreto onde para entrar é preciso mais do que os doze trabalhos de Hércules. Foi neste momento, que senti o teu passo a cambalear e a música, obra-prima tua, a baixar de tom até virar um sussurro indecifrável… E os teus olhos tristes como dois rios a desaguarem em mim. Hoje, enquanto tento decifrar em que nota nós imortalizamos esta doce melodia da nossa amizade, apercebo-me que nunca nos despiremos um do outro e que todas as noites a palavra saudade terá o teu nome.
Amanhã, ainda recordaremos com carinho, o meu pedido nunca atendido, repetido até à exaustão:
‘Promete-me que não te apaixonas por mim’…
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