Chamam-lhe Saudade

By Flor - 8/05/2010 02:39:00 da tarde


Fazes-me falta, uma falta danada que nem imaginas. A tua ausência acarreta um tal travo amargo que me dura todo o dia sem cessar. Fico por aí jogada à minha má sorte, a encher os meus dias de espaços em branco só para que eles mudem de página e tu te encontres comigo já ali na próxima esquina. Começo a fazer contas de cabeça, eu que nem sou boa com os números nem tenho boa memória para datas, dou por mim a saber o tempo exacto que me separa da tua chegada. Fazes-me falta, sabias? Percebi agora mesmo, enquanto atravessava a rua e imaginei o teu sorriso a balançar no lado de lá à espera de me enlaçar o olhar e o meu passo a acelerar na esperança que me guardasses nalgum lugar debaixo da pele. Este anseio de chegar a ti e não te encontrar. Queria cruzar as minhas pernas com as tuas, entrelaçar os meus dedos com os teus num tamanho exagero que deixássemos de ser dois. Esta urgência de te sentir consome-me, arrelia-me, aborrece-me. A minha vida cronometrada ao segundo, a nossa distância medida ao centímetro e esta falta de ti, maldita que não passa. Queria entrar em transe, ficar de molho, pressionar o pause até este vazio passar, é que quanto mais o tempo passa mais teimo em te lembrar. E cada vez te lembro melhor. Dedico-me incansavelmente à cirurgia reconstrutiva, num vai e vem, puxa e empurra e corta e cose compondo-te em gestos, palavras e cheiros familiares. Fazes-me falta e para colmatar, hoje ainda te sei melhor do que ontem, graças a este esmiuçar dengoso de todas as imagens que te ilustram. Preciso que voltes depressa, como se tivesses só ido ali ao café do Sr. Francelino comprar cigarros para alimentar o vício depois do amor. Preciso de ti a desenhar-me o sorriso numa linha perfeita de bisturi. Preciso que estejas aqui, nem que seja só a fazer corpo presente, a ocupar espaço ou a gastar o ar. Fazes-me falta e isso é grave, tão grave como a crise económica, o aquecimento global ou a iminência da terceira guerra mundial. E enquanto isto não passa, fico eu aqui amputada a gerir saudades mal-resolvidas, desejando apenas acordar de manhã lado a lado com a tua pele, no perfeito contraste da minha, no véu harmonioso e incisivo desta felicidade que um dia num tiro às cegas de pim pam pum aleatório nos acertou em cheio.

(5810)
(DdA)


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