Questionável casualidade

By Flor - 12/13/2010 08:28:00 da tarde


Conhecemo-nos casualmente, num dia vulgar do calendário semanal. Nem sei se sol, se chuva, se o vento murmurava em correria. Somente, casualmente. E hoje, com sinceridade te confesso que esse teu desacreditar na casualidade me envolve continuamente num manto de suave perspicácia cautelosa. Um véu de lucidez, talvez, que o acaso só existe quando ninguém reclama os direitos de autor e tu nunca prescindiste dos teus. Dizes-me que entre nós existe uma contínua inexistência de coincidências. Que já éramos para ser. Nesse vislumbre budista que te assalta de improviso em nuances de Karma. Somos o desaguar, não sei se tu, se eu, se os dois, é um não é mar mas tem gosto a sal. Indistinguível o meu fim, indecifrável o teu começo. Ambos um embaralhado de fortuito bom gosto. Uma sorte, pensando bem, quantos seres neste mundo vago se encontram? Uma coincidência, digo eu. E começas tu a ler-me sinais num tom de contradição, falando-me até no alinhamento perfeito do mundo estrelar, imagina, circunvagando assim incessantemente o meu cepticismo. Não nos consideraste precoces, recém-nascidos prematuros, vínhamos prescritos. Ao passado nunca o vislumbraste efémero, ao tempo que se afigura dizes que não nos chega. A espera revelou-se deveras prolongada, uma cruel e desmerecida ausência de vestígios, de meros indícios para nos sabermos. Chegaste-me trivialmente, mera brisa a deslizar nos meus dias ordinários, esvoaçando o meu sorriso. Encontro casual o nosso, apenas por acaso digo eu, descrente nessas coisas do Tarot, do Mapa Astral ou na combinação puzzle dos signos. E agora, enterneces-me em reminiscências constantes da tua presença, no fim de uma frase, num gesto rotineiro e um cheiro familiar. Só tu, tu, tu… Envolvente, contagiante, constante, bruma deliciosa, inabalável pelo tic-tac ‘relogiano’. Doce devoção bastando-se a si mesma. Que já éramos para ser. Convenço-me eu nas tintas para o cliché.


(131210)

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