Que nem sempre te lembro é um facto. Não me és necessário, a não ser quando me atinge a ressaca indelicada de te saber a existência. Como o forro da minha saia travada, dás o ar da tua graça em momentos impróprios, quando me cruzo e descruzo numa dança de sedução implícita e delicada nos encontros furtivos da idade da inocência. Mas não tenho vergonha, nem sequer me fazes embaraço, há muito que te carrego entre as pernas, essas que tantas vezes se abriram para ti em momentos de sorrisos deveras insanos. Não me incomoda, que te encontrem nelas ou onde for, sei dar-te a volta com a rapidez de uma hélice, sem desfraldar a camisa ou desgrenhar um fio de cabelo. A juventude apagou-se como uma estrela cadente, essa que brilhou mais do que o que lhe era devido e todos sabemos que as estrelas mais brilhantes são também as mais fugazes. Os filhos cresceram, os meus e os teus, nenhum deles chegou a ser nosso, não nos demos tempo no nosso passado sincopado. Agora, simplesmente, já se faz tarde para danças mundanas a discos pedidos. Não mais irás cortar o ar que respiro, despires-me de preconceitos (que não me habitam) ou intrometeres-te no ângulo obtuso entre os meus joelhos. Seguimos como linhas paralelas e encontramo-nos por aí, quem sabe em festas do colégio como esta, onde a tua mulher se pela de medo que dês um passo em falso, sabendo que é missão suicida, que nunca deixei de te atravessar como uma bala e que mesmo cessando as investidas vou acumulando estilhaços pré-históricos em ti. Entre mortos e feridos, não sairemos ilesos. Quanto a mim, espero que continues a passar só de raspão, como a comichão de uma lembrança fora de prazo. Resquícios teus a cada aurora, porque nunca te enterrei, não por falta de vontade ou escassez de tentativas. Sorri para as fotos como pai babado que és e eu prometo, sem cruzar o médio com o indicador que não faço troça de ti quando trocares as mãos pelos pés na dança de honra. E acabemos com os olhares cheios de devoção nostálgica, o tango não se dança a três e os nossos passos nunca foram verticalmente sincronizados!

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