- Gosto de ti!
- Eu também.
E gostavas mesmo, meu querido. Com delicadeza, dedicação e
devoção. Enquanto eu apenas te atirava um, “eu também”, ensonado, desenxabido e
desanimado. Uma brisa ártica que te cuspia sem dó, veneno insípido, a
defender-me de nada, a atacar o que não me era merecido. Olhavas-me com
encantamento, numa nota de piedade por não me saber amar. Beijavas-me o cabelo,
as mãos, a testa, o nariz, beijavas-me… E entre nós, as raízes do meu medo,
ininterrupto, de não me ser suficiente sem ti. Nunca te esquecias de nada, dos
dias, dos abraços, da cor dos meus vestidos, de mimar os bichos. Eu … nunca me
esqueci de ti. Partiste cedo. Abruptamente. Tu, que não esmagavas as flores,
tu, que não tinhas falta de diplomacia, erudição, paciência para os analfabetos
do coração. Tu, que me amaste com clarividência, no bafio escuro do meu ser disléxico
no sentir. Sei que continuas a passar por mim. Mas já não te vejo. Só o arrepio
na espinha. Só cada poro do minha pele a respirar-te. Só o teu aroma no ar.
Permanecem.
- Bom dia! Quais são as previsões para hoje, senhor Armindo?
- Bom dia, menina! Aqui no jornal diz que vem um vento de
leste, é melhor agasalhar-se! Deixe que lhe abra a porta.
- Não é preciso! Deixe-se estar descansado! – Eu!
Autossuficiente, independente, dona do meu nariz. Sem tempo para
cavalheirismos, para sorrisos de compaixão, para gestos de pena, sem tempo para
te amar.
- Ora essa, menina. É para isso que me pagam!
Sorrio condescendente. Aperto o casaco. Saio para a rua. E
tu, a ríres-te de mim. Dos meus falsos pretextos, como o colar de pérolas que
ainda ajudas-te o senhor Armindo a escolher para dar à mulher no natal. A
divertires-te com as arrogâncias que invento para digerir, sempre, e mais uma
vez, o vazio miudinho que deixas todas as manhãs no meu corpo fatigado de te
lembrar.
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9 aconchegos