Chegou Setembro e afinal tu não estás. Mentiste-me! De ti
ficou apenas esta solidão insolente que me agasalha o corpo nú do toque arguto
das tuas mãos. Enquanto eu vou fugindo do enamoramento dos outros como uma
afronta ao legado de memórias que me doaste em tom de capricho, tornando-me
inábil ao teu esquecimento. Dedos entrelaçados passeiam-se pelas ruas,
trocam-se beijos cúmplices e sorrisos embriagados moram no olhar rútilo de quem
sabe que o que deseja vive grudado a si, emaranhado nas pernas entrelaçadas,
escondidas pelos lençóis mornos da preguiça de domingo. E eu soturna, raquítica e embargada
na minha inveja, roída da felicidade alheia pespegada virtualmente em fotos
insidiosas de intimidade e mimos, a querer rever-me na pirosidade das
confissões trocadas e nos lugares comuns do amor vulgar, ilustrado por aquela
ousadia cliché de roubar a ordem do tempo em lampejos de eternidade. Mas já é
Setembro e tu não estás. Será que também andas meio coxo arrastando-te em
sapatos desiguais pelas noites em claro? Ou já te curaste de nós, reavivado por
línguas ensonadas e as feridas devidamente lambidas na voraz excitação das
camas desconhecidas? Pé ante pé, os dias vão desvanecendo, no rasgar vago das folhas
do calendário. E no tempo agreste do Outono, tu tinhas que me doer.
(24914)

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