Na dimensão irreal do passado

By Flor - 4/19/2016 10:12:00 da tarde



Dispo-me lentamente deixando pela casa um rasto que já não segues. Em silêncio, solto cabelo e vislumbro-me no espelho, antes do vapor dissolver o reflexo. A Água beija-me a pele com volúpia, na vã tentativa de acalmar a lembrança da luxúria das tuas mãos em mim. Toco-me com despudor e sem hesitação sinto-te descer pelo meu corpo, beijando-o, arrepiando cada poro, cada partícula do meu ser. Os teus lábios em plena sintonia com o meu desejo, como se nunca tivessem sido desconhecidos. Envolves-me, delimitando-me, exigindo-me submissa, subjugada pela tua ambição lascívia de me fazer tua. Os teus dedos encontram a medida exata da minha cintura, enquanto me puxam para ti e deslizam, subindo até me circundarem o pescoço que roda para o teu rosto, na súplica febril de quem já não sabe esperar. Beijas-me com agressividade e a palma da tua (outra) mão pressiona-me num fervor meigo, sem me satisfazer. Com um masoquismo atroz de quem comanda, a tua língua morna e cúmplice lambe o que a tua boca anteriormente mordeu. Percorres-me sem segredos e calando os soluços de ternura, finalmente… Volto a mim, sozinha, perdida na dimensão irreal do passado, neste Braille da paixão que um dia escrevemos e eu não sei como apagar.

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