Dispo-me lentamente deixando pela casa um rasto que já
não segues. Em silêncio, solto cabelo e vislumbro-me no espelho, antes do vapor
dissolver o reflexo. A Água beija-me a pele com volúpia, na vã tentativa de
acalmar a lembrança da luxúria das tuas mãos em mim. Toco-me com despudor e sem
hesitação sinto-te descer pelo meu corpo, beijando-o, arrepiando cada poro,
cada partícula do meu ser. Os teus lábios em plena sintonia com o meu desejo,
como se nunca tivessem sido desconhecidos. Envolves-me, delimitando-me,
exigindo-me submissa, subjugada pela tua ambição lascívia de me fazer tua. Os
teus dedos encontram a medida exata da minha cintura, enquanto me puxam para ti
e deslizam, subindo até me circundarem o pescoço que roda para o teu rosto, na
súplica febril de quem já não sabe esperar. Beijas-me com agressividade e a
palma da tua (outra) mão pressiona-me num fervor meigo, sem me satisfazer. Com
um masoquismo atroz de quem comanda, a tua língua morna e cúmplice lambe o que
a tua boca anteriormente mordeu. Percorres-me sem segredos e calando os soluços
de ternura, finalmente… Volto a mim, sozinha, perdida na dimensão irreal do
passado, neste Braille da paixão que um dia escrevemos e eu não sei como
apagar.
(15416)
