Queria que me levasses para um motel reles, daqueles que
povoam a cidade, em ruas duvidosas com nomes sugestivos e escadarias apertadas.
Esses covis de promiscuidade, onde eu seria puta e tu cliente, sem receio de
nos saberem a existência. Queria que me amasses nos vãos de escada, onde o
desejo te sobejaria e os gemidos ecoassem nas paredes de papel gasto,
salvando-nos pela tentação. Que fizesses de mim contorcionista, numa cama suja
do vício de outros corpos nus. Sabendo de cor que somos segredo de confessionário,
felicidade clandestina, neste viver errado que nos atrai. Queria que não ignorássemos
a urgência de nos sugarmos entre as pernas, com um deleite quase infantil, tateando
a fechadura da porta, sempre a escorregar-nos entre a humidade dos dedos. Queria
que o teu olhar furtivo sobre a minha pele transparece-se um tom de doce
contemplação e me despisses com o zelo minucioso das mãos gaguejantes,
fitando-me silenciosamente, no decorrer de um minuto abismal. Sucumbir ao teu encanto,
sem nos fatigarmos com o fingimento de nos inventarmos conhecidos de circunstância,
contendo esta fome de canibalismo que leva o meu pé desnudo a resvalar-te a
perna, subindo insidiosamente o teu Ego. Queria que não fossemos um amor impuro,
corrompido na profunda nostalgia de nos sabermos de outrem, transformando a
mentira o nosso último refúgio. Tudo para não nos privarmos de nos comermos,
como bichos famintos no limiar da exaustão.
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