Falas-me de felicidade com um amargo de boca, como se de
repente, o meu sorriso te abalasse o suco gástrico e te sufocasse a
maçã-de-adão. Não te sobra nada, pavão tolo, do misticismo que te inventei, do
doce travo com sabor a pecado que um dia te senti. És lastimável, nessa tua
espécie de ser intelectual, uma fachada, que não passa de ar rarefeito. Nesse teu
sopro de decoro, cuspido em névoa, para que não vejam o deserto que és. Desengana-te. E não te
embrenhes em cegueiras de ego ressabiado, achando que o desprezo calculado me faz
comichões e chagas na pele. Nenhuma costureira nos salva o forro rasgado, nem
as bainhas assimétricas em pernas mancas. Entende, filósofo de algibeira. Se eu,
nada te digo, é porque nada me provocas e chegas até a ser adjeto nos meus dias
corriqueiros. Mas por muito que negues, (para ti) ainda sou um alfinete a
riscar-te o verniz, forçado em dedos entrelaçados, na perpetuação de um
braço de ferro infrutífero, no qual desfraldas as expectativas. Pesa-te tanto a
minha vida sem ti. Por isso, exortas a emoção numa frivolidade quase anedótica.
Nessa estéril tentativa de curares as insónias à volta do meu riso,
sistematicamente disparado, sem seres tu a fazeres-me cocegas.
(111012)
Músicas:


















