Não te faças demorar.
Vem comigo encurtar-nos a distância.
Envolve-me com um sopro, despeja os bolsos
(dessa tua vida cheia de falta de nós)
em cima da mesa.
Agora,
vem desarrumar-me o cabelo,
borrar-me a pintura e amachucar-me a roupa,
acabando de uma só vez com a minha vaidade.
Vamos falar sem nexo, sorrir em exagero,
sentir-nos chegar ao limiar da exaustão.
Até que a lua se renda aos primeiros raios da manhã,
a entrarem sem pudor pela janela do quarto.
E no final,
de olhos semicerrados ordenados de sonhos,
com os passos já a arrastarem-se pelo chão,
a nudez da minha alma se encontre desmaiada,
aconchegada pela tua.

Abraças-me com o olhar e começas a perder-te em mim,
enquanto os meus lábios te beijam distantes na lembrança de te sentir.
Permanecemos assim,
numa conexão sem toque,
a sorver a insaciável presença do outro
com o peito ansioso,
apertado e sangrando de saudade,
numa antecipação da despedida.

E por vezes deixar-me em silêncio numa combinação muda de fonemas
que se calam no derradeiro segundo que antecede o teu beijo.
Eu a gritar-te num sussurro afónico para tu ouvires o que não te sei dizer.
Enquanto me roubas o fôlego e me trancas o coração na boca,
pronto a embalar-te com as palavras do amor que ainda não te contei,
mas que já é teu,
mesmo sem dele nada saberes.

Aqui onde me deixaste,
não há estrelas e as ruas não têm nome.
Não cheira a flores e os pássaros não dormem nos beirais.
Os relógios correm desgovernados e o Sol não me sorri pela manhã.
não há estrelas e as ruas não têm nome.
Não cheira a flores e os pássaros não dormem nos beirais.
Os relógios correm desgovernados e o Sol não me sorri pela manhã.
Aqui anoiteço sozinha e reinvento-me...
sem a ponta dos teus dedos a arrepiarem-me a pele.
sem a ponta dos teus dedos a arrepiarem-me a pele.

