
O tic-tac do relógio como pano de fundo sempre a zumbir no quarto vazio. Lá fora a chuva de Outono a cair na calçada e os carros a passar de longe a longe, apressados, chapinando nas poças de água espalhadas pela estrada. Uma luz difusa do candeeiro pousado na mesa-de-cabeceira e uns pontos a reluzirem para lá da janela. O chão povoado pelo meu corpo colado no tapete das flores e os olhos pregados no tecto, contando as estrelas que não sucumbiram à força da gravidade. Neste subterfúgio, qualquer coisa me serve para uma tentativa falhada de atraiçoar a saudade que me murmura: ‘Gosto de ti’…
Bonito eufemismo. Nunca te tornas velho cliché e os minutos que te antecedem a chegada, quebram repetidamente à contagem inicial. És sempre a minha primeira vez.
(131110)

A presença da ausência sempre grudada na pele, desejando distância desta nossa distância que me dói. Quantas vezes te esqueci sabendo que me eras tanto e que esquecer-te não passava de ilusão minha. Estas ruas onde me perco, ansiando encontrar-te em esquinas que me enchem, só para me lembrarem do meu vazio de ti. Fecho os olhos de mágoa, almejando-te ainda, meu ‘lar doce lar’. E sinto o meu coração pulsar, sorrindo por te saber, ainda, dentro dele.
