
Diz-me coisas bonitas, amor. Fala-me do céu, do mar, fala-me de nós. Conta-me histórias de “era uma vez…”. Diz-me que é para sempre, mesmo que seja só até amanhã de manhã. Conjuga o verbo amar na 1ª pessoa do plural. Fala-me de amor, amor. Conta-me loucuras insanas de amores impossíveis que um dia se concretizaram. Beija-me amor, beija-me e diz que me amas em silêncio. Fala-me de mundo encantados em que ninguém acredita. Fala-me de fadas, de castelos e casinhas de palha que nenhuma tempestade derruba. Diz-me coisas bonitas, amor. Fala-me de coisa meramente banais que ninguém consegue alcançar. Pinta um arco-íris no meu horizonte e promete-me sem promessas que os dias serão sempre assim. Diz-me coisas bonitas. Canta-me canções de amor escritas por ti, sussurra-me palavras secretas que ninguém pode ouvir e grita aos quatro ventos que as estrelas brilham para nós que somos loucos.
Olha-me nos olhos, encosta os teus lábios aos meus, põe as tuas mãos na minha cintura e diz-me coisas bonitas, meu amor.
(1837)

Somos amigos, daqueles que só se encontram uma vez na vida. Amigos do peito, da alma, de cada centímetro quadrado dos nossos corpos, que tantas vezes são apenas um. Não somos daqueles amigos de infância que cresceram lado a lado, nem jogamos à apanhada, às escondidinhas ou a qualquer outra coisa juntos quando éramos ainda meio tostão de gente. Não fingimos que casámos, quando pensávamos que o casamento é que unia as pessoas para sempre, nem demos o nosso primeiro beijo um ao outro. Somos de mundos diferentes eu da terra dos infantários de meninos chiques, sapatinhos de vela e pólos às risquinhas, tu dos meninos descalços, de calças rotas e t-shirt suja a jogar à bola na rua (e talvez bem mais felizes). Mas somos amigos, daqueles que se conhecem sem saberem bem ao certo como nem porquê. Brincamos juntos depois de termos mais de um metro de altura, e aprendemos as diferenças que nos aliciavam. Vamos deixando os dias correrem, enquanto eu até te acho piada e tu até tens paciência para jogar ao quarto escuro. Queremo-nos bem, e desejamo-nos de braços caídos, já sem força para lutar contra o íman que nos cerca os movimentos e nos arrasta pelo chão que nos une. Somos amigos diferentes, daqueles que se completam, nem sempre nos entendemos, quase nunca concordamos e raramente temos a mesma opinião, mas cuidamo-nos como se o batimento do nosso coração dependesse do sorriso sincero do outro.
(...)
E muitas vezes depende mesmo!

(2829)
Eu até quase que aposto que posso ser um mulher de família como aquelas de antigamente. Daquelas que lavam e estendem a roupa, limpam a casa com primor, fazem a cama de manhã quando ainda nem o sol despertou do sono depois de uma noite bem passada com a lua. Até quase que aposto que na minha casa não haveria um grãozinho de pó ou um único ácaro atrevido para atazanar a asma dos mais pequenos. E para encarnar a personagem na perfeição, seria uma cozinheira de mão cheia, de barriga sempre encostada ao fogão cheia de gordura no cabelo só para te satisfazer e te servir enquanto tu te afundavas no sofá a ver futebol de cerveja na mão. Eu até quase que aposto que seria uma esposa exemplar, que iria buscar os miúdos ao ATL, passava horas no hipermercado a fazer as compras do mês e por fim estaria sempre linda e maravilhosa sem gastar muito dinheiro e tempo no shopping e no cabeleireiro. Mas meu príncipe, eu até quase que aposto que isto não duraria nem uma semana, porque quem sabe fazer as compras do mês és tu, e tu é que cozinhas pratos de receitas inventadas pelos deuses que me regalam a vista e me enchem de gula, enquanto eu fico deitada no sofá e me perco em histórias imaginárias de livros que me ofereces de sorriso no rosto e mão no bolso. Porque passo horas em frente ao espelho enquanto tu te enfureces com a minha vaidade irritante depois de uma noite mal dormida mas bem passada e saímos de casa a correr atrasados (como sempre) para o encontro com o mundo que nos espera deixando os lençóis de linho branco ali à vista de todos e a casa por arrumar.

(250209)
