Surgiste-me inesperado num dia corriqueiro do calendário semanal. Eras-me uma vez um estranho e na vaga impossibilidade do mundo, recheado de encontrões desencontrados e linhas cruzadas que nunca se tocam transformaste o teu rosto numa imagem familiar. Há coisas assim, que começam do nada, nos chegam sem aviso prévio e se arrumam na nossa vida num encaixe perfeito e natural como duas peças do mesmo puzzle. És a boa nova que me chegou, numa brisa suave que se instalou graciosamente no momento certo na hora exacta, nesse fenómeno estranho a que chamam ‘sintonia’. Um desejo de ano novo que não passa, um sorriso que não se desfaz, uma fotografia bonita que o tempo não faz desbotar a cor, és-me tanto, do tanto de bom que existe. Gosto-te assim, nesta mansidão, neste desejo, com esta clarividência, num prenúncio de guerra e paz que te precede e que faz o meu riso cair na onda da felicidade fazendo com que o meu coração vá navegando via barco á vela no sopro da tua voz. Eu sôfrega de ti em desassossego, quando ao longe te desvendo o gingado, as borboletas num alvoroço a bater as asas contra as paredes do estômago e o peito a saltar-me fazendo tabela entre as costelas. Preciso-te neste ar que só nós sabemos suspirar. ‘Dá-me-te’ com urgência que te preciso assim, a descobrir-me pé ante pé, a gozar-me, abusar-me, usar-me nestes minutos que inventamos para sair fora do tempo. Abraça-me, aperta-me e lambe-me as feridas enquanto os meus gritos morrem no fundo da garganta abafados pela tua pele. Há pessoas assim, que nos chegam para nos salvar de nós mesmos, não no primeiro olhar nem no primeiro toque mas no vagar dos dias. Basta deixar correr e num pôr-do-sol encenado feito pintura, dar de caras com o sentido da vida pespegado na ponta do nariz. E pensar que me eras uma vez um estranho, agora sei o espaço exacto que os teus dedos ocupam entre os meus.

Fazes-me falta, uma falta danada que nem imaginas. A tua ausência acarreta um tal travo amargo que me dura todo o dia sem cessar. Fico por aí jogada à minha má sorte, a encher os meus dias de espaços em branco só para que eles mudem de página e tu te encontres comigo já ali na próxima esquina. Começo a fazer contas de cabeça, eu que nem sou boa com os números nem tenho boa memória para datas, dou por mim a saber o tempo exacto que me separa da tua chegada. Fazes-me falta, sabias? Percebi agora mesmo, enquanto atravessava a rua e imaginei o teu sorriso a balançar no lado de lá à espera de me enlaçar o olhar e o meu passo a acelerar na esperança que me guardasses nalgum lugar debaixo da pele. Este anseio de chegar a ti e não te encontrar. Queria cruzar as minhas pernas com as tuas, entrelaçar os meus dedos com os teus num tamanho exagero que deixássemos de ser dois. Esta urgência de te sentir consome-me, arrelia-me, aborrece-me. A minha vida cronometrada ao segundo, a nossa distância medida ao centímetro e esta falta de ti, maldita que não passa. Queria entrar em transe, ficar de molho, pressionar o pause até este vazio passar, é que quanto mais o tempo passa mais teimo em te lembrar. E cada vez te lembro melhor. Dedico-me incansavelmente à cirurgia reconstrutiva, num vai e vem, puxa e empurra e corta e cose compondo-te em gestos, palavras e cheiros familiares. Fazes-me falta e para colmatar, hoje ainda te sei melhor do que ontem, graças a este esmiuçar dengoso de todas as imagens que te ilustram. Preciso que voltes depressa, como se tivesses só ido ali ao café do Sr. Francelino comprar cigarros para alimentar o vício depois do amor. Preciso de ti a desenhar-me o sorriso numa linha perfeita de bisturi. Preciso que estejas aqui, nem que seja só a fazer corpo presente, a ocupar espaço ou a gastar o ar. Fazes-me falta e isso é grave, tão grave como a crise económica, o aquecimento global ou a iminência da terceira guerra mundial. E enquanto isto não passa, fico eu aqui amputada a gerir saudades mal-resolvidas, desejando apenas acordar de manhã lado a lado com a tua pele, no perfeito contraste da minha, no véu harmonioso e incisivo desta felicidade que um dia num tiro às cegas de pim pam pum aleatório nos acertou em cheio.

Sempre foste muito esperta e essa tua infindável esperteza é que me deu cabo do juízo. Enredei-me de tal forma em ti, que nunca mais te consegui tirar da cabeça e mais tarde do coração, esse, ficou tão vidrado e encadeado por ti que um dia me dei conta… chamar-te de ‘sol’ não era de todo uma falácia. O amor é assim, não se lhe pode dar muita trela ou ele começa a trepar paredes, passear-se em muros e a ultrapassar barreiras, e depois? Depois quem se lixa, somos nós – sou eu – que andamos a sofrer, como cães abandonados ao relento a vaguear pelas ruas. E nem adianta caírem-nos aos pés outras pinhas de Outono, onde nos vamos refugiando, coleccionando momentos prazerosos na companhia de corpos desprovidos de rosto. Basta distrair-me um segundo e lá estás tu dentro da minha cabeça, voltando à minha mente com toda a força, tal e qual as vagas de frio em plena Era Glacial. Fico cego com esse teu ar de princesa da Disneyland misturado com a dose certa de inteligência e genuinidade. Quando se tropeça numa mulher como tu, o que é que se faz?? Pois claro, cai-se redondo no chão, knock out na hora sem a mínima oportunidade de ripostar o golpe certeiro. Não fazes mesmo parte do planeta terra, é um facto, e não se pode olhar demasiado para o teu rosto risonho sem se cair, literalmente, de amores por ti. E eu, feito burro, não desviei o meu olhar nem por nada. Seria mais inteligente ter-me atirado de um avião sem pára-quedas, parava por aí numa nuvem, metia-me nos copos, arranjava uns bagacinhos temporários e curava-me deste feitiço que me lançaste. Pior a emenda que o soneto, ainda te encontrava ou começava a alucinar e a ver-te em todo o lado, tu que és anjo e nem por nada deste mundo ou do outro – mais do outro, claro – abandonas o teu céu. O amor é mesmo um gajo lixado e a mim apanha-me sempre de ponta, não posso andar por aí descansado a curtir as minhas necessidades que ele aparece e f*** tudo. Fazes-me sentir borboletas na barriga e aquelas parvoíces todas pirosas e lamechas de miúdas, fico com as mãos suadas quando me sorris e basta chegares perto que fico com electricidade estática e desato a tremer como um puto com medo de ir para a escola porque lhe roubaram a bola de futebol no dia anterior. Eu já sabia que esta minha mania de seguir as setas um dia ia dar mau resultado, – olha, e deu – mas tu já sabias isso, já sabias muito antes de eu sequer imaginar, lês pensamentos, tens poderes telepáticos e atrofiaste-me o cérebro, foi o que foi, deves ser bruxa ou prima da Maya,quiçá! Odeio-te! Ou não! Era bom era! Vai sonhando… Ainda por cima tens um código penal só teu, com regras e leis que cumpres religiosamente… Quantas vezes é que eu te poderia levar para ‘maus caminhos’? Zero! Zero vezes! Pequena, Pequena… Mas amanhã vai ser outro dia, o tempo irá passar, até chegar O Dia, não te preocupes, não te exaltes, não te passes, não é O Dia que te vou levar para a cama. Não... É O Dia em que não te vou querer mais nela.

