
Aguardo-te sempre entre a tua quase partida e a tua ansiada chegada, dispersa, absorta em nada, sentada junto de mesas coloridas e pessoas estranhas a cirandar em meu redor como formigas em alvoroço. E aquele cheiro a fritos e fast-food a pairar no ar, a entranhar-se no cabelo apanhado e nas roupas lavadas, perfumadas de flores. Aguardo que me imprimas a tinta permanente um sorriso no meu rosto cansado, que laves tudo com a tua passagem, transbordando as minhas margens e o meu caminho seja de pétalas, sol e passarinhos cantando em sintonia uma melodia já conhecida. Serás então o fim de tarde do meu carecido dia, aqui ser-me-ás o presente, aquele que não se encontra num qualquer espaço do tempo esquecido numa prateleira poeirenta de uma loja do centro comercial mais próximo. Aguardo-te, espero-te e de súbito temo que não venhas, que te percas nos trilhos ainda por traçar ou tropeces inesperadamente numa festa nas costas, um encosto de ombro ou um cumprimento sedutor mais descaído na tua bochecha corada. E numa partida de mau gosto, nesta vida de troca voltas tu nunca mais voltes para mim. Por isso não te faças demorar, vem rondar-me a solidão e gastar-me a teimosia de fio a pavio, porque agora é Outono e as vagas de frio já se fazem sentir. Vem mimar-me com beijinhos de esquimó na minha ponta do nariz já vermelha e enrolar-te delicadamente em mim como um cachecol de lã. Assim saberei que não mais me deitarei sozinha, nem voltarei a adormecer com a tua ausência grudada no lado esquerdo da cama.


