
Aguardo-te sempre entre a tua quase partida e a tua ansiada chegada, dispersa, absorta em nada, sentada junto de mesas coloridas e pessoas estranhas a cirandar em meu redor como formigas em alvoroço. E aquele cheiro a fritos e fast-food a pairar no ar, a entranhar-se no cabelo apanhado e nas roupas lavadas, perfumadas de flores. Aguardo que me imprimas a tinta permanente um sorriso no meu rosto cansado, que laves tudo com a tua passagem, transbordando as minhas margens e o meu caminho seja de pétalas, sol e passarinhos cantando em sintonia uma melodia já conhecida. Serás então o fim de tarde do meu carecido dia, aqui ser-me-ás o presente, aquele que não se encontra num qualquer espaço do tempo esquecido numa prateleira poeirenta de uma loja do centro comercial mais próximo. Aguardo-te, espero-te e de súbito temo que não venhas, que te percas nos trilhos ainda por traçar ou tropeces inesperadamente numa festa nas costas, um encosto de ombro ou um cumprimento sedutor mais descaído na tua bochecha corada. E numa partida de mau gosto, nesta vida de troca voltas tu nunca mais voltes para mim. Por isso não te faças demorar, vem rondar-me a solidão e gastar-me a teimosia de fio a pavio, porque agora é Outono e as vagas de frio já se fazem sentir. Vem mimar-me com beijinhos de esquimó na minha ponta do nariz já vermelha e enrolar-te delicadamente em mim como um cachecol de lã. Assim saberei que não mais me deitarei sozinha, nem voltarei a adormecer com a tua ausência grudada no lado esquerdo da cama.

Aqui onde me deixaste,
não há estrelas e as ruas não têm nome.
Não cheira a flores e os pássaros não dormem nos beirais.
Os relógios correm desgovernados e o Sol não me sorri pela manhã.
não há estrelas e as ruas não têm nome.
Não cheira a flores e os pássaros não dormem nos beirais.
Os relógios correm desgovernados e o Sol não me sorri pela manhã.
Aqui anoiteço sozinha e reinvento-me...
sem a ponta dos teus dedos a arrepiarem-me a pele.
sem a ponta dos teus dedos a arrepiarem-me a pele.
Surgiste-me inesperado num dia corriqueiro do calendário semanal. Eras-me uma vez um estranho e na vaga impossibilidade do mundo, recheado de encontrões desencontrados e linhas cruzadas que nunca se tocam transformaste o teu rosto numa imagem familiar. Há coisas assim, que começam do nada, nos chegam sem aviso prévio e se arrumam na nossa vida num encaixe perfeito e natural como duas peças do mesmo puzzle. És a boa nova que me chegou, numa brisa suave que se instalou graciosamente no momento certo na hora exacta, nesse fenómeno estranho a que chamam ‘sintonia’. Um desejo de ano novo que não passa, um sorriso que não se desfaz, uma fotografia bonita que o tempo não faz desbotar a cor, és-me tanto, do tanto de bom que existe. Gosto-te assim, nesta mansidão, neste desejo, com esta clarividência, num prenúncio de guerra e paz que te precede e que faz o meu riso cair na onda da felicidade fazendo com que o meu coração vá navegando via barco á vela no sopro da tua voz. Eu sôfrega de ti em desassossego, quando ao longe te desvendo o gingado, as borboletas num alvoroço a bater as asas contra as paredes do estômago e o peito a saltar-me fazendo tabela entre as costelas. Preciso-te neste ar que só nós sabemos suspirar. ‘Dá-me-te’ com urgência que te preciso assim, a descobrir-me pé ante pé, a gozar-me, abusar-me, usar-me nestes minutos que inventamos para sair fora do tempo. Abraça-me, aperta-me e lambe-me as feridas enquanto os meus gritos morrem no fundo da garganta abafados pela tua pele. Há pessoas assim, que nos chegam para nos salvar de nós mesmos, não no primeiro olhar nem no primeiro toque mas no vagar dos dias. Basta deixar correr e num pôr-do-sol encenado feito pintura, dar de caras com o sentido da vida pespegado na ponta do nariz. E pensar que me eras uma vez um estranho, agora sei o espaço exacto que os teus dedos ocupam entre os meus.

