
O tic-tac do relógio como pano de fundo sempre a zumbir no quarto vazio. Lá fora a chuva de Outono a cair na calçada e os carros a passar de longe a longe, apressados, chapinando nas poças de água espalhadas pela estrada. Uma luz difusa do candeeiro pousado na mesa-de-cabeceira e uns pontos a reluzirem para lá da janela. O chão povoado pelo meu corpo colado no tapete das flores e os olhos pregados no tecto, contando as estrelas que não sucumbiram à força da gravidade. Neste subterfúgio, qualquer coisa me serve para uma tentativa falhada de atraiçoar a saudade que me murmura: ‘Gosto de ti’…
Bonito eufemismo. Nunca te tornas velho cliché e os minutos que te antecedem a chegada, quebram repetidamente à contagem inicial. És sempre a minha primeira vez.
(131110)

Às vezes ainda me perco dentro de mim, com o mero intuito de te reencontrar. Já não te anseio nos meus dias, nem te desejo nas vírgulas dos próximos capítulos. Não passa tudo de um velho hábito que eu vou despindo devagar, para que nenhum movimento brusco leve mais do que é devido e não acabe com a alma numa chaga viva. Continuo a escrever-te em voz baixa, no tom doce e franco que sempre te dediquei. Não sei, se algum dia as palavras que te escrevo chegar-se-ão a esgotar, há muito que não desperdiço tempo com futurismos desenhados segundo a tua imagem. É certo, que ainda te uso descaradamente para ocupar os espaços em branco, que de tempos em tempos me assolam. Como uma criança vou moldando a plasticina do teu ser ao meu belo gosto, mas já não te construo no meu destino como quem brinca com Legos e na minha casa de bonecas tu agora não fazes parte da família. Nunca deixei de admirar o teu jeito descarado de me corromper os dias, a tua forma descontraída de me roubar sorrisos e o teu charme natural e perigoso, de tão facilmente gostável. No entanto, existe pouco que ainda nos sustente nestes tempos de crise, aos cortes que fizemos não sei o porquê de ainda nos sobrarmos tanto. Só as fotografias é que não desbotaram as cores artisticamente combinadas nos passe-partouts (algures) perdidos pela casa. Do que era, pouco nos restou e o que não se diluiu no tempo foi-se arrumando onde doía menos. Hoje, só vivemos lado a lado nas bocas do mundo, mas um dia até elas calar-se-ão. Deixaremos de ser notícia de primeira página, com o título em letras gordas. A amnésia é um mal geral, porém, de vez em quando bate-me à porta esta minha imunidade a epidemias.

(251010)

Abraças-me com o olhar e começas a perder-te em mim,
enquanto os meus lábios te beijam distantes na lembrança de te sentir.
Permanecemos assim,
numa conexão sem toque,
a sorver a insaciável presença do outro
com o peito ansioso,
apertado e sangrando de saudade,
numa antecipação da despedida.
Há coisas que nunca mudam, amores que nunca acabam, ‘para sempre’ que se concretizam e a tua presença disfarçada nos meus dias. Há coisas que se mimetizam, o teu nome a piscar no ecrã do telemóvel, ele a vibrar urgente da minha atenção e a minha apatia, aparente, agasalhada pelo ‘deve ser engano’! Ainda te lembras de mim? Talvez o controlo te tenha escapado entre os dedos e numa fugaz coincidência, se tenha aconchegado no meu nome, perdido algures no meio da lista telefónica. Será que me esqueci de algo, por aí? Quem sabe, o meu coração amolgado, vestido de pó e remendos mal amanhados. Fico assim a cismar, o que poderá ser. Provavelmente mais uma aposta com um amigo, desta vez ganhavas se a parva, trémula e com a alma em alvoroço te desse logo atenção e nem deixasse o telemóvel (tadinho), matar as saudades de um velho companheiro de conversas. Ainda deves viver com trivialidades a passear de mão dada contigo na vaga ideia fútil de te terem saqueado o coração. Afinal, há coisas que nunca mudam, poucas, é certo, mas o teu jeito para me aldrabar e a minha boa vontade inocente, ou será indecente? Esses, ainda por cá andam, na mesma pasmaceira de sempre. E tu, que me conheces, invades-me o dia assim, logo pelo fim(zinho) da manhã e no mesmo instante, imagino o embaraço, a língua enrolada e as palavras já gastas, do tempo que nos escoltou no passado, a saírem em esforço e a fala a arrastar-se pelo chão do quarto já tonto, das voltas e contravoltas que os meus pés por si só decidiram dar. Entras no meu dia num looping perfeito, transformando-o numa Montanha Russa e eu fecho-te a porta antes que a segurança falhe. Poupo-te os sorrisos de circunstância e a conversa encenada, desembaraçando o nó que me deste no estômago. Mordo o lábio inferior, cruzo os dedos, julgando-te um mero falso alarme. Há muito que já não me deves desculpas, nem eu te devo perdões. Deixo tocar, até tudo ficar mudo, surdo e a desordem acalmar. Depois mandas mensagem, despejas o recado na caixa de Voice-mail ou desistes da ideia. Afinal de contas, hoje nem é 1 de Abril! E no fundo apenas te estejas a enganar a ti mesmo, porque eu já não te sirvo de engodo para levantar o ego ou empatar o tédio.
(151010)

E por vezes deixar-me em silêncio numa combinação muda de fonemas
que se calam no derradeiro segundo que antecede o teu beijo.
Eu a gritar-te num sussurro afónico para tu ouvires o que não te sei dizer.
Enquanto me roubas o fôlego e me trancas o coração na boca,
pronto a embalar-te com as palavras do amor que ainda não te contei,
mas que já é teu,
mesmo sem dele nada saberes.

Aguardo-te sempre entre a tua quase partida e a tua ansiada chegada, dispersa, absorta em nada, sentada junto de mesas coloridas e pessoas estranhas a cirandar em meu redor como formigas em alvoroço. E aquele cheiro a fritos e fast-food a pairar no ar, a entranhar-se no cabelo apanhado e nas roupas lavadas, perfumadas de flores. Aguardo que me imprimas a tinta permanente um sorriso no meu rosto cansado, que laves tudo com a tua passagem, transbordando as minhas margens e o meu caminho seja de pétalas, sol e passarinhos cantando em sintonia uma melodia já conhecida. Serás então o fim de tarde do meu carecido dia, aqui ser-me-ás o presente, aquele que não se encontra num qualquer espaço do tempo esquecido numa prateleira poeirenta de uma loja do centro comercial mais próximo. Aguardo-te, espero-te e de súbito temo que não venhas, que te percas nos trilhos ainda por traçar ou tropeces inesperadamente numa festa nas costas, um encosto de ombro ou um cumprimento sedutor mais descaído na tua bochecha corada. E numa partida de mau gosto, nesta vida de troca voltas tu nunca mais voltes para mim. Por isso não te faças demorar, vem rondar-me a solidão e gastar-me a teimosia de fio a pavio, porque agora é Outono e as vagas de frio já se fazem sentir. Vem mimar-me com beijinhos de esquimó na minha ponta do nariz já vermelha e enrolar-te delicadamente em mim como um cachecol de lã. Assim saberei que não mais me deitarei sozinha, nem voltarei a adormecer com a tua ausência grudada no lado esquerdo da cama.

Aqui onde me deixaste,
não há estrelas e as ruas não têm nome.
Não cheira a flores e os pássaros não dormem nos beirais.
Os relógios correm desgovernados e o Sol não me sorri pela manhã.
não há estrelas e as ruas não têm nome.
Não cheira a flores e os pássaros não dormem nos beirais.
Os relógios correm desgovernados e o Sol não me sorri pela manhã.
Aqui anoiteço sozinha e reinvento-me...
sem a ponta dos teus dedos a arrepiarem-me a pele.
sem a ponta dos teus dedos a arrepiarem-me a pele.
Surgiste-me inesperado num dia corriqueiro do calendário semanal. Eras-me uma vez um estranho e na vaga impossibilidade do mundo, recheado de encontrões desencontrados e linhas cruzadas que nunca se tocam transformaste o teu rosto numa imagem familiar. Há coisas assim, que começam do nada, nos chegam sem aviso prévio e se arrumam na nossa vida num encaixe perfeito e natural como duas peças do mesmo puzzle. És a boa nova que me chegou, numa brisa suave que se instalou graciosamente no momento certo na hora exacta, nesse fenómeno estranho a que chamam ‘sintonia’. Um desejo de ano novo que não passa, um sorriso que não se desfaz, uma fotografia bonita que o tempo não faz desbotar a cor, és-me tanto, do tanto de bom que existe. Gosto-te assim, nesta mansidão, neste desejo, com esta clarividência, num prenúncio de guerra e paz que te precede e que faz o meu riso cair na onda da felicidade fazendo com que o meu coração vá navegando via barco á vela no sopro da tua voz. Eu sôfrega de ti em desassossego, quando ao longe te desvendo o gingado, as borboletas num alvoroço a bater as asas contra as paredes do estômago e o peito a saltar-me fazendo tabela entre as costelas. Preciso-te neste ar que só nós sabemos suspirar. ‘Dá-me-te’ com urgência que te preciso assim, a descobrir-me pé ante pé, a gozar-me, abusar-me, usar-me nestes minutos que inventamos para sair fora do tempo. Abraça-me, aperta-me e lambe-me as feridas enquanto os meus gritos morrem no fundo da garganta abafados pela tua pele. Há pessoas assim, que nos chegam para nos salvar de nós mesmos, não no primeiro olhar nem no primeiro toque mas no vagar dos dias. Basta deixar correr e num pôr-do-sol encenado feito pintura, dar de caras com o sentido da vida pespegado na ponta do nariz. E pensar que me eras uma vez um estranho, agora sei o espaço exacto que os teus dedos ocupam entre os meus.

Fazes-me falta, uma falta danada que nem imaginas. A tua ausência acarreta um tal travo amargo que me dura todo o dia sem cessar. Fico por aí jogada à minha má sorte, a encher os meus dias de espaços em branco só para que eles mudem de página e tu te encontres comigo já ali na próxima esquina. Começo a fazer contas de cabeça, eu que nem sou boa com os números nem tenho boa memória para datas, dou por mim a saber o tempo exacto que me separa da tua chegada. Fazes-me falta, sabias? Percebi agora mesmo, enquanto atravessava a rua e imaginei o teu sorriso a balançar no lado de lá à espera de me enlaçar o olhar e o meu passo a acelerar na esperança que me guardasses nalgum lugar debaixo da pele. Este anseio de chegar a ti e não te encontrar. Queria cruzar as minhas pernas com as tuas, entrelaçar os meus dedos com os teus num tamanho exagero que deixássemos de ser dois. Esta urgência de te sentir consome-me, arrelia-me, aborrece-me. A minha vida cronometrada ao segundo, a nossa distância medida ao centímetro e esta falta de ti, maldita que não passa. Queria entrar em transe, ficar de molho, pressionar o pause até este vazio passar, é que quanto mais o tempo passa mais teimo em te lembrar. E cada vez te lembro melhor. Dedico-me incansavelmente à cirurgia reconstrutiva, num vai e vem, puxa e empurra e corta e cose compondo-te em gestos, palavras e cheiros familiares. Fazes-me falta e para colmatar, hoje ainda te sei melhor do que ontem, graças a este esmiuçar dengoso de todas as imagens que te ilustram. Preciso que voltes depressa, como se tivesses só ido ali ao café do Sr. Francelino comprar cigarros para alimentar o vício depois do amor. Preciso de ti a desenhar-me o sorriso numa linha perfeita de bisturi. Preciso que estejas aqui, nem que seja só a fazer corpo presente, a ocupar espaço ou a gastar o ar. Fazes-me falta e isso é grave, tão grave como a crise económica, o aquecimento global ou a iminência da terceira guerra mundial. E enquanto isto não passa, fico eu aqui amputada a gerir saudades mal-resolvidas, desejando apenas acordar de manhã lado a lado com a tua pele, no perfeito contraste da minha, no véu harmonioso e incisivo desta felicidade que um dia num tiro às cegas de pim pam pum aleatório nos acertou em cheio.

Sempre foste muito esperta e essa tua infindável esperteza é que me deu cabo do juízo. Enredei-me de tal forma em ti, que nunca mais te consegui tirar da cabeça e mais tarde do coração, esse, ficou tão vidrado e encadeado por ti que um dia me dei conta… chamar-te de ‘sol’ não era de todo uma falácia. O amor é assim, não se lhe pode dar muita trela ou ele começa a trepar paredes, passear-se em muros e a ultrapassar barreiras, e depois? Depois quem se lixa, somos nós – sou eu – que andamos a sofrer, como cães abandonados ao relento a vaguear pelas ruas. E nem adianta caírem-nos aos pés outras pinhas de Outono, onde nos vamos refugiando, coleccionando momentos prazerosos na companhia de corpos desprovidos de rosto. Basta distrair-me um segundo e lá estás tu dentro da minha cabeça, voltando à minha mente com toda a força, tal e qual as vagas de frio em plena Era Glacial. Fico cego com esse teu ar de princesa da Disneyland misturado com a dose certa de inteligência e genuinidade. Quando se tropeça numa mulher como tu, o que é que se faz?? Pois claro, cai-se redondo no chão, knock out na hora sem a mínima oportunidade de ripostar o golpe certeiro. Não fazes mesmo parte do planeta terra, é um facto, e não se pode olhar demasiado para o teu rosto risonho sem se cair, literalmente, de amores por ti. E eu, feito burro, não desviei o meu olhar nem por nada. Seria mais inteligente ter-me atirado de um avião sem pára-quedas, parava por aí numa nuvem, metia-me nos copos, arranjava uns bagacinhos temporários e curava-me deste feitiço que me lançaste. Pior a emenda que o soneto, ainda te encontrava ou começava a alucinar e a ver-te em todo o lado, tu que és anjo e nem por nada deste mundo ou do outro – mais do outro, claro – abandonas o teu céu. O amor é mesmo um gajo lixado e a mim apanha-me sempre de ponta, não posso andar por aí descansado a curtir as minhas necessidades que ele aparece e f*** tudo. Fazes-me sentir borboletas na barriga e aquelas parvoíces todas pirosas e lamechas de miúdas, fico com as mãos suadas quando me sorris e basta chegares perto que fico com electricidade estática e desato a tremer como um puto com medo de ir para a escola porque lhe roubaram a bola de futebol no dia anterior. Eu já sabia que esta minha mania de seguir as setas um dia ia dar mau resultado, – olha, e deu – mas tu já sabias isso, já sabias muito antes de eu sequer imaginar, lês pensamentos, tens poderes telepáticos e atrofiaste-me o cérebro, foi o que foi, deves ser bruxa ou prima da Maya,quiçá! Odeio-te! Ou não! Era bom era! Vai sonhando… Ainda por cima tens um código penal só teu, com regras e leis que cumpres religiosamente… Quantas vezes é que eu te poderia levar para ‘maus caminhos’? Zero! Zero vezes! Pequena, Pequena… Mas amanhã vai ser outro dia, o tempo irá passar, até chegar O Dia, não te preocupes, não te exaltes, não te passes, não é O Dia que te vou levar para a cama. Não... É O Dia em que não te vou querer mais nela.

A presença da ausência sempre grudada na pele, desejando distância desta nossa distância que me dói. Quantas vezes te esqueci sabendo que me eras tanto e que esquecer-te não passava de ilusão minha. Estas ruas onde me perco, ansiando encontrar-te em esquinas que me enchem, só para me lembrarem do meu vazio de ti. Fecho os olhos de mágoa, almejando-te ainda, meu ‘lar doce lar’. E sinto o meu coração pulsar, sorrindo por te saber, ainda, dentro dele.
Desde que entraste no meu caminho eu passo a vida a tropeçar em ti. Mesmo quando desejo que nada me sejas e que não passes só de mais um espaço no tempo para encher o dia. O vazio enche-se com vislumbres da tua ausência, em cada esquina, em cada olhar sem vida dos que por mim passam. E eu vou deambulando, distraída, na espera morosa que a vontade se sobreponha à consciência, sabendo que não me encaixo no papel reservado, que não sou dotada para estes enlaces duplos e que meto os pés pelas mãos. Anseio-te, no segredo dos deuses, sem eu mesma saber, na sombra inerte dos meus valores morais. Digo aos quatro ventos que é impossível acontecermos e sorrio em tom de disfarce, no vão das coisas que me dizes, nesta nossa história com coordenadas erradas e ruas estreitas, e o nosso receio de nos apanharmos os dois em contra mão. Os teus silêncios abruptos como nós na garganta (que eu já não estranho), o teu passo hesitante, o medo de ficares fora de jogo, e perceberam onde te leva o coração, a sufocarem-te, com o nervoso miudinho e o stress pós traumático de teres chocado contra mim, numa curva apertada. E eu, que sempre me recusei a fazer rendilhados e a passear-me por becos sem saída. Não há nada que não me possas dizer que eu já não saiba, nos nossos devaneios de honestidade, onde as tuas palavras enumeram em mim, a perfeição que eu não encontro, e os teus olhos esmeralda descobrem tudo o que até então só nos sonhos existia. Tu, que tens pressa, andas de Ferrari, cobras e queres a tradução do meu desejo em sílabas e frases feitas. Esqueceste-te que eu sou do tempo dos coches e ainda tenho essa infantilidade de acreditar nos contos de fadas e os seus afins. Não tenho perfil para destruidora de lares, mesmo que neles a felicidade não abunde, e que por vezes pense que te deitas com a pessoa errada, quando saio para a rua e as estrelas já povoam o céu, sabendo que pelo menos temos o prazer de apreciar a mesma lua. Virei-te do avesso, sem nunca sequer ter sentido o teu toque, não me transformei em corpo presente nos teus dias, mas, virei intrusa na tua mente, por isso, aprendeste a manter-te na minha margem, a contemplar-me em terras de ninguém. Eu, que fiquei em ti, como uma marca de água ténue, daquelas que não se apagam, que quase ninguém vê, mas que quem a tem, não a consegue esquecer. Ambos marcamos a nossa posição, eu, neófita nestes jogos perigosos e sem jeito para disfarces brejeiros, e tu, homem de boa índole, a abrirmos espaço e a acumular matéria entre nós, negando-nos ao passatempo das horas conjuntas, nos dias X do calendário. Mas, não é por isso, que ainda hoje quando te digo que qualquer dia desapareces do meu mapa e me apagas do teu, que tu deixas de desafiar a gravidade, colocando o teu pezinho em ramo verde e dizeres em tom de brincadeira, com um sorriso de miúdo traquina: “Qualquer dia apago tudo o que tenho (só) para te ter no meu mapa.”

(26610)

Escrevo-te em silêncio para que ouças melhor aquilo que não te digo. Ocultando nestas palavras, o carinho desmedido que te tenho e nelas não cabe, nem que as inventasse de novo tentando acertar em vão no número correcto. Há fantasmas em mim que desconheces, que nunca se pronunciam vivendo num mutismo atroz que me esmaga os sentidos. E eu, não sou só eu, donzela casta e imaculada, mas sou também isto tudo que tu não vês, este excesso de carga, sempre acima do peso desejado e permitido por lei. Por isso, recuo, escapo-te entre os dedos como a água a transbordar da fonte e há recantos no meu corpo que permanecem anónimos ao toque suave das tuas mãos, mesmo quando a minha pele arrepiada quer ficar quase, quase, encostada à tua, desejando não ter mais para onde fugir. É nesse preciso instante que chego por um momento a desmaiar no conforto do teu aconchego e a acertar o batimento do meu coração para ele poder viver no exacto registo do teu. Nesses dias em que me agarras num impulso decidido com a ternura que te envolve cada gesto, sinto o mundo prestes a parar debaixo dos nossos pés, como se lá fora não existisse mais do que o vazio e a nossa respiração sincronizada ditasse exactamente a velocidade da rotação da terra. Tu perdido gentilmente no fundo das minhas costas, com vontade de me eternizar no tempo e eu a gostar de te sentir no deleite dos meus lábios, com um sorriso desenhado a tinta permanente como o perfeito álibi do ‘para sempre’. Já sabias que seria assim, o meu corpo abrigado no teu regaço e a tua aura a agasalhar o meu desamparo. Tens a intuição dos sábios, mas nunca te tinhas cruzado com a teimosia pura e lendária da minha irrealidade. Faltava-te o conhecimento aprofundado do meu mundo, por isso, a arritmia súbita e descompassada da tua alma quando deu de caras com a minha, com aquela mania dela de que é náufraga e de inventar oásis que viram o seu porto de abrigo secreto onde para entrar é preciso mais do que os doze trabalhos de Hércules. Foi neste momento, que senti o teu passo a cambalear e a música, obra-prima tua, a baixar de tom até virar um sussurro indecifrável… E os teus olhos tristes como dois rios a desaguarem em mim. Hoje, enquanto tento decifrar em que nota nós imortalizamos esta doce melodia da nossa amizade, apercebo-me que nunca nos despiremos um do outro e que todas as noites a palavra saudade terá o teu nome.
Amanhã, ainda recordaremos com carinho, o meu pedido nunca atendido, repetido até à exaustão:
‘Promete-me que não te apaixonas por mim’…
(4610)

Tinha tanto para te dizer. Mil e uma perguntas ansiosas por aconchegos de palavras. Um oceano repleto de gestos e frases entaladas no fundo do vazio que me deixaste, ávidas de um pouco de ti. Mas, depois de passar noites atrás de noites em claro, desejando o teu corpo a abraçar o meu, percebi que não te ausentaste só da minha pele, mas também de ti mesmo, e as palavras não servem de nada para quem não as quer ouvir. A tua alma ficou tão surda que emudeceu a minha. Dantes, a distância não passava de uns meros centímetros entre os meus lábios e os teus, bastava-me inspirar fundo para te encontrar no ar. É irónico como me encheste a vida de luz, quem diria que seria eu a navegar sem rumo perante a tua ausência. Tu que foste o cavaleiro andante no meu conto de fadas, quando percebi que o amor não existia sem provas e tu me enchias os dias com gestos inequívocos da existência do teu. Nunca vou esquecer o teu olhar de menino crescido, onde eu descansava os meus medos, afogava os meus fantasmas e cobria-me com um manto de felicidade cristalina sem prazo de validade. Esbarramo-nos sem pré-aviso, como dois estranhos que caminham em caminhos opostos do mesmo passeio e de repente encontram um no outro a sua casa. Agora que seguiste as placas para destinos só teus, ficou em mim o frio do teu afastamento precoce. O meu caminho transformou-se num deserto árido do toque seguro das tuas mãos, do cheiro perfumado do teu pescoço, da tua boca a calar a minha, das tuas carícias meigas enquanto eu adormecia e me escondia do mundo no abrigo do teu abraço apertado. Hoje, a minha epiderme sobrevive desidratada com sede da tua e o meu olhar vagueia perdido, por já não viver dentro do teu. Habituaste-te a ter tudo da vida, a tua existência sempre foi povoada de chegadas e partidas desenfreadas, pensei que tinhas desfeito as malas e que te iria ver instalado nos meus dias, sentado no chão da sala ou na varanda a fumar sempre mais um cigarro. Parece que me enganei. Deixaste-me presa por um fio como um iô-iô e o meu coração ao dependuro, no balanço das ondas do mar que me molham o rosto. Fazes-me falta. A tua imagem assalta-me insaciavelmente em memórias perdidas de um tempo longínquo, fingindo-se de tão presente, parecendo que foste tu há segundos, a pegar-me no colo, a aconchegar-me os cobertores e beijar-me em tom de ‘Boa noite’. Os sonhos concretizam-se, sabias? E tu já foste a minha perfeita e idílica realidade. É tão incrivelmente fácil sonhar-te… Por isso, faço de ti novamente o meu principezinho e de mim a tua princesa, na nossa história de encantar. Deixo o tempo correr devagar, para não te sentir partir antes do ‘para sempre’. E não fujo quando batem as doze badaladas. Porque há muito que te entreguei o coração e ele encaixou perfeitamente no teu.
(12210)
Entraste apressado como um furacão perdido no tempo, a hora combinada já ia longe e o Sol punha-se, arrefecendo os seus raios no mar. Fui a primeira a abrir a porta, depois de muitos anos em que eras tu que desesperavas com os meus atrasos, sempre por demais prolongados. Desta vez a tua chegada não era ansiada, podia ter ficado dias sentada naquela cadeira vagueando o olhar pelas paredes envidraçadas e os dedos a bater no tampo da mesa de carvalho envernizado. A tua cara espelhada em cada em cada peça…o tempo fizera de ti um homem importante. Quem diria? Choviam-te elogios, caiam-te aos pés como folhas caducas de Outono, e tu abrias caminho entre os destroços, remavas contra a maré e não tinhas tempo a perder. As tuas horas tornaram-se escassas, a tua vida uma azáfama de compromissos inadiáveis e os teus dias pacíficos, viraram uma roda-viva que não cessa. Vinhas acompanhado, morena de caracóis, uma pele resplandecente de porcelana e olhos claros, quase transparentes, se o nevoeiro não pairasse no fundo, revelando o sorriso falso e a simpatia fingida. Sentaram-se lado a lado, cúmplices, sérios e conscientes do que se seguiria. Não era mais do que um “negócio” rotineiro, procedimentos habituais e as burocracias do costume. Abriste a pasta, de couro preto, retiraste os papéis imaculadamente brancos e deixaste que fosse ela a encarar-me, com os seus conhecimentos superficiais,sobre um assunto que não lhe dizia respeito. E pensar que me endividei por ti, desejei-te demais da conta e acabei na falência. Se fosse hoje… não mudava um traço rasurado do nosso esboço, uma palavra fora da linha, o nosso amor em desalinho e de novo os mesmos erros ortográficos de outrora, como se nunca nos tivessem ensinado a conjugar os verbos nas formas correctas. Havia um vazio, um silêncio oco no fundo dos teus olhos, o teu corpo ausente de impaciência, nunca me fitaste, talvez com medo de te afundares nas lágrimas que só tu podias sentir, a correr no fundo do meu peito. Assinei cada folha sem convicção e sem pressa, quando nos despedimos de uma parte de nós temos antes que chorar todas as lágrimas, desembaraçar cada nó e no mais íntimo de nós, abrir mão, para regressarmos em paz à solidão dos dias. Pousei a caneta na mesa e com um jeito cuidado, terno até, pegaste Nele, ainda a bombear o ar como se porventura me pertencesse, colocaste-o numa caixa de cristal, contemplaste-o com admiração e o teu rosto brilhava de satisfação, Ele era forte, não se deixou abater, nem esmoreceu. Fechaste a caixa como um cofre-forte, levantaste-te e o teu andar de Príncipe Real não te abandonou, agora o meu bem mais precioso era teu, se não para sempre, enquanto os dias nascessem. No último instante, repousaste o teu olhar no meu, antes de fechares a porta, abraçaste-me demoradamente em segredo, afastaste-te a medo, com um receio profundo de que ainda houvesse algum elo que nos ligasse e este se quebrasse no teu primeiro passo distante. Sorri com doçura, incentivando-te a partir com o meu olhar ainda a sussurrar saudades esquecidas. No momento em que os teus olhos se desenlaçaram dos meus, o pulsar no fundo da tua mão findou e a caixa pintou-se de um vermelho vivo. Viraste-te num impulso rápido... À tua frente estava a minha cadeira vazia e uma Fénix renascida das cinzas voava no horizonte.
Agradeço a todos pelas vossas sugestões! =) Gostei especialmente de "leve desamparo de um doce sentimento" da Maria resume na perfeição o meu devaneio. Obrigada.
Deixo-me solta e de repente o mundo fica mais leve com o meu coração a flutuar por aí perdido num balão de ar quente. Viro louca desmiolada, apaixonada por ti, o meu corpo levita ondulando finalmente até à saída do emaranhado labirinto que nos desconjuga o ser, desembaraço os nós da razão e de alma dada derrubamos os muros que desunem as cores da nossa pele. Os dias que nada mudam, correm apressados na ânsia de te encontrarem nos lampiões acesos pela noite fora, por onde fugimos e corremos soltos, de volta para o amparo dos braços que a distância não desenlaçou, rasgando o que nos discrimina e aparta convicto do supostamente correcto. Mergulho no fundo do teu olhar e contemplo-te arrebatada pelo encanto que preservas nos mundos que habitam dentro de ti. Ficamos ambos laçados pairando acima das nuvens e o chão na pontinha dos nossos pés. Os gestos desamarram-se e o teu coração trespassa-me o peito, acarinhando o meu batimento cardíaco, já por si só acelerado. Digo o quanto te quero bem num sussurro silencioso, que me rasga a alma num abismo vazio, onde me encho de ti reconfortando-te no mais fundo de mim. Batalhamos contra nós mesmos, inimigos engenhosos sem receio da derrota, esgotamos os estratagemas ilusórios e acabamos rendidos. Esqueço o medo, deixo-te entrar docemente enquanto me acalmas um pouco no meio da tempestade, esperas que o meu corpo aquiete devagar e vais prolongando a melodia dos teus lábios e o mel da tua pele contrastando com a minha. Haverá sempre uma noite de chuva e vendavais milagrosos repletos de magia que nos devolvam o aconchego do abraço que nos pertence. Até o dia nascer e a noite correr desamparada de volta para o negrume obscuro, enquanto os raios de sol nos vão banhando o rosto atulhando-nos de razão, e a nossa sombra a fugir difusa pelo branco das paredes e de repente já lúcida vejo-te a escorrer-me pelos dedos deixando-me a balançar carecida de ti na corda da solidão.
Não consegui encontrar um título para o texto,
por isso, se tiverem alguma ideia gostava que me dissessem! =)
Beijinhos para todos e já agora um óptimo Natal* ^^
por isso, se tiverem alguma ideia gostava que me dissessem! =)
Beijinhos para todos e já agora um óptimo Natal* ^^
*Título de Maria da Silva
(22119)
(22119)

Continuamos a levar a cabo uma relação insana, feita de marés que mudam com um simples sopro, onde o ódio e o amor não se suportam cruzando-se num vai e vem desenfreado. Andamos os dois a agonizar nesta ausência de apatia sentimental, numa peça de teatro enfadonha e intragável cheia de actos falhados e personagens repetidas que nunca saem de cena, num cenário que já cheira a mofo. Mimetizamos os gestos, os sorrisos, as lágrimas, as palavras e principalmente os silêncios. Não nos entendemos, nem percebemos o que cai nas entrelinhas. Enchemo-nos de ofensas brancas, como as mentiras, e manejamos o tempo que não temos com a destreza de quem pega numa espada demasiado afiada. Não me digas nada de nada, já não suporto a algazarra silenciosa que nos separa, o nosso emudecimento ainda me grita no fundo da alma que já não te tem como aconchego. Não te dispas mais de mim, não te quero saber de cor como quem aprende a tabuada, ensina-me antes a filosofia do teu ser e deixemos as ciências exactas que o nosso ‘bem-querer’ não tem. Já me cansa este puxa e empurra, esta brincadeira de criança a ver quem cai primeiro no jogo da corda e doem-me os joelhos à muito esfarelados das vezes que o chão foi a minha morada. Continuemos então este ‘mono diálogo’ em que transformamos o nosso amor e não te entristeças meu príncipe, porque este amor que nos une, -para lá do nosso entendimento- é daqueles que viverá para sempre, mas só porque não tem onde cair morto.

(1809)
Às vezes tenho saudades tuas. Aparecem assim pela manhãzinha ou nos intervalos do tempo em que te esqueço e é ver-me que nem uma maníaca das limpezas aparentes, a varrer-te para debaixo do tapete da entrada, para que ninguém repare que ainda me És tanto. A tua ausência maça-me com tanta convicção que chego a ter medo que o tédio de não te ter se torne o bê-á-bá dos meus dias. Quando não me ligas e o teu paradeiro é extraviado para parte incerta, eu enlouqueço um pouco. É nesses dias que o deserto do Sahara se torna ameno e temperado, um local ideal, afável e aprazível para se viver, comparado com o descontrole meteorológico que se apodera da minha alma. Cansa-me que de ti me sobrem apenas as lembranças de um realidade inexistente, incomoda como uma melga que não deixa dormir depois do cair da noite, os pés molhados num dia de chuva fazendo chap-chap a cada passo, um formigueiro na ponta dos dedos que se vai alastrando pelo corpo todo. A saudade que tenho de ti aborrece-me, vem pela calada pé ante pé, chegando-me inesperada enquanto leio o jornal e me sorris no fundo da página no meio da sopa de letras onde formo o teu nome. Cutuca-me em cada esquina do meu caminho rotineiro e barra-me a passagem em poses exibicionistas para me roubar a atenção. É isso mesmo, saudade. E é uma chatice não te ter aqui para me ajudares a matá-la com golpes certeiros. Esta falta de ti padece-me a alma, mas a culpa é minha, - eu sei - fui eu que desfolhei o livro demasiado depressa na ânsia de chegar até a ti e agora que encerras-te o capítulo eu não sei como virar a página.

(131009)

Tens os olhos mais cristalinos que eu já vi, como lagos selvagens banhados pela luz do sol. Existe um mundo inteiro dentro deles e é por isso que não vivemos na mesma dimensão. Tu vês castelos, princesas e cavaleiros valentes de espada em punho que um dia se transformam em príncipes. Eu vejo miséria, destruição, tristeza e não confio em ninguém porque toda a gente mente. Esse teu brilho que trespassa todo o sofrimento, a dor e as trevas onde vivo acompanha-me todos os dias como uma estrela guia. O mundo não é um lugar perfeito, mas os nossos mundos não são iguais, a matéria não é a mesma, os números não batem certo e a química não condiz, por isso é que às vezes o nosso entendimento não é claro e fica um lusco-fusco entre a minha escuridão e a tua luz. O teu brilho é inconfundível, talvez tenha sido ele que te fez ver através de mim e levado o teu coração a amar o meu. E esse amor nunca falhou nem nos momentos mais sombrios, não balançou neste gume afiado em que vivemos tentando o equilíbrio, encurtando os Anos-luz que nos distanciam um do outro. Porque és uma sonhadora e precisas de acreditar que é possível arquitectar a perfeição no meio da neblina para que o desfiar dos dias não te mate. Quantos já te amaram sem saberes, por viveres nesse teu mundo encantado. Eu amei-te desde o primeiro instante, não, não foi amor à primeira vista, eu amo-te de outra vida, uma vida que não esta. Acredita que somos mais que um mundo princesa de algodão doce, acredita que mergulhar no fundo do teu olhar é de perder o fôlego, mas viver dentro do teu coração é a brisa dos Deuses.

(121009)





