
O tic-tac do relógio como pano de fundo sempre a zumbir no quarto vazio. Lá fora a chuva de Outono a cair na calçada e os carros a passar de longe a longe, apressados, chapinando nas poças de água espalhadas pela estrada. Uma luz difusa do candeeiro pousado na mesa-de-cabeceira e uns pontos a reluzirem para lá da janela. O chão povoado pelo meu corpo colado no tapete das flores e os olhos pregados no tecto, contando as estrelas que não sucumbiram à força da gravidade. Neste subterfúgio, qualquer coisa me serve para uma tentativa falhada de atraiçoar a saudade que me murmura: ‘Gosto de ti’…
Bonito eufemismo. Nunca te tornas velho cliché e os minutos que te antecedem a chegada, quebram repetidamente à contagem inicial. És sempre a minha primeira vez.
(131110)

Às vezes ainda me perco dentro de mim, com o mero intuito de te reencontrar. Já não te anseio nos meus dias, nem te desejo nas vírgulas dos próximos capítulos. Não passa tudo de um velho hábito que eu vou despindo devagar, para que nenhum movimento brusco leve mais do que é devido e não acabe com a alma numa chaga viva. Continuo a escrever-te em voz baixa, no tom doce e franco que sempre te dediquei. Não sei, se algum dia as palavras que te escrevo chegar-se-ão a esgotar, há muito que não desperdiço tempo com futurismos desenhados segundo a tua imagem. É certo, que ainda te uso descaradamente para ocupar os espaços em branco, que de tempos em tempos me assolam. Como uma criança vou moldando a plasticina do teu ser ao meu belo gosto, mas já não te construo no meu destino como quem brinca com Legos e na minha casa de bonecas tu agora não fazes parte da família. Nunca deixei de admirar o teu jeito descarado de me corromper os dias, a tua forma descontraída de me roubar sorrisos e o teu charme natural e perigoso, de tão facilmente gostável. No entanto, existe pouco que ainda nos sustente nestes tempos de crise, aos cortes que fizemos não sei o porquê de ainda nos sobrarmos tanto. Só as fotografias é que não desbotaram as cores artisticamente combinadas nos passe-partouts (algures) perdidos pela casa. Do que era, pouco nos restou e o que não se diluiu no tempo foi-se arrumando onde doía menos. Hoje, só vivemos lado a lado nas bocas do mundo, mas um dia até elas calar-se-ão. Deixaremos de ser notícia de primeira página, com o título em letras gordas. A amnésia é um mal geral, porém, de vez em quando bate-me à porta esta minha imunidade a epidemias.

(251010)

Abraças-me com o olhar e começas a perder-te em mim,
enquanto os meus lábios te beijam distantes na lembrança de te sentir.
Permanecemos assim,
numa conexão sem toque,
a sorver a insaciável presença do outro
com o peito ansioso,
apertado e sangrando de saudade,
numa antecipação da despedida.
