Queria que me levasses para um motel reles, daqueles que
povoam a cidade, em ruas duvidosas com nomes sugestivos e escadarias apertadas.
Esses covis de promiscuidade, onde eu seria puta e tu cliente, sem receio de
nos saberem a existência. Queria que me amasses nos vãos de escada, onde o
desejo te sobejaria e os gemidos ecoassem nas paredes de papel gasto,
salvando-nos pela tentação. Que fizesses de mim contorcionista, numa cama suja
do vício de outros corpos nus. Sabendo de cor que somos segredo de confessionário,
felicidade clandestina, neste viver errado que nos atrai. Queria que não ignorássemos
a urgência de nos sugarmos entre as pernas, com um deleite quase infantil, tateando
a fechadura da porta, sempre a escorregar-nos entre a humidade dos dedos. Queria
que o teu olhar furtivo sobre a minha pele transparece-se um tom de doce
contemplação e me despisses com o zelo minucioso das mãos gaguejantes,
fitando-me silenciosamente, no decorrer de um minuto abismal. Sucumbir ao teu encanto,
sem nos fatigarmos com o fingimento de nos inventarmos conhecidos de circunstância,
contendo esta fome de canibalismo que leva o meu pé desnudo a resvalar-te a
perna, subindo insidiosamente o teu Ego. Queria que não fossemos um amor impuro,
corrompido na profunda nostalgia de nos sabermos de outrem, transformando a
mentira o nosso último refúgio. Tudo para não nos privarmos de nos comermos,
como bichos famintos no limiar da exaustão.
(30812)
- Gosto de ti!
- Eu também.
E gostavas mesmo, meu querido. Com delicadeza, dedicação e
devoção. Enquanto eu apenas te atirava um, “eu também”, ensonado, desenxabido e
desanimado. Uma brisa ártica que te cuspia sem dó, veneno insípido, a
defender-me de nada, a atacar o que não me era merecido. Olhavas-me com
encantamento, numa nota de piedade por não me saber amar. Beijavas-me o cabelo,
as mãos, a testa, o nariz, beijavas-me… E entre nós, as raízes do meu medo,
ininterrupto, de não me ser suficiente sem ti. Nunca te esquecias de nada, dos
dias, dos abraços, da cor dos meus vestidos, de mimar os bichos. Eu … nunca me
esqueci de ti. Partiste cedo. Abruptamente. Tu, que não esmagavas as flores,
tu, que não tinhas falta de diplomacia, erudição, paciência para os analfabetos
do coração. Tu, que me amaste com clarividência, no bafio escuro do meu ser disléxico
no sentir. Sei que continuas a passar por mim. Mas já não te vejo. Só o arrepio
na espinha. Só cada poro do minha pele a respirar-te. Só o teu aroma no ar.
Permanecem.
- Bom dia! Quais são as previsões para hoje, senhor Armindo?
- Bom dia, menina! Aqui no jornal diz que vem um vento de
leste, é melhor agasalhar-se! Deixe que lhe abra a porta.
- Não é preciso! Deixe-se estar descansado! – Eu!
Autossuficiente, independente, dona do meu nariz. Sem tempo para
cavalheirismos, para sorrisos de compaixão, para gestos de pena, sem tempo para
te amar.
- Ora essa, menina. É para isso que me pagam!
Sorrio condescendente. Aperto o casaco. Saio para a rua. E
tu, a ríres-te de mim. Dos meus falsos pretextos, como o colar de pérolas que
ainda ajudas-te o senhor Armindo a escolher para dar à mulher no natal. A
divertires-te com as arrogâncias que invento para digerir, sempre, e mais uma
vez, o vazio miudinho que deixas todas as manhãs no meu corpo fatigado de te
lembrar.
Digo-te já, que te quero com a avidez e a voracidade do aqui e agora, numa luxúria sumptuosa sem romance ou lirismo poético adjacente. Quero-te em tom de capricho a satisfazer-me o lado lunar, sem alegorias e roçando a vaidade irracional que o ‘amor’ não se intelectualiza, nem se conjectura. Cravar-te as unhas na pele, prender-te pela nuca, adornar-te a cintura com as minhas pernas e a tua barba a arranhar-me em lugares côncavos, com um sorriso desenhado nos lábios a arrepiar-me atrás do lóbulo da orelha. ‘Dá-me-te’ com despudor, sem teorias platónicas, metáforas ou aforismos. Vamos alinhar os chakras! Chega de amores exíguos com receio do infame. Deixa-me explicar-te, que me é indispensável de às vezes, os dois sermos um só! Que a apneia com que nos comprazemos, quando os teus dedos se perdem entre os meus fios de cabelo embaraçado, é o suficiente para acabar com a fome e originar a paz no mundo. Que a forma com que ostensivamente me despes em jeito de contemplação, enquanto soluço o teu nome em laivos de prazer, diminui o aquecimento global e que é quando amiúde me seguras de encontro a ti, em posturas de ângulos utópicos que leva ao ajuste do movimento translativo. Por isso, vamos em descompostura sabermo-nos por inteiro, ousar atar o sol, roubar a ordem do tempo e almejar o infinito, porque o meu desejo não se acomoda com a metade.
(2411)

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