Dispo-me lentamente deixando pela casa um rasto que já
não segues. Em silêncio, solto cabelo e vislumbro-me no espelho, antes do vapor
dissolver o reflexo. A Água beija-me a pele com volúpia, na vã tentativa de
acalmar a lembrança da luxúria das tuas mãos em mim. Toco-me com despudor e sem
hesitação sinto-te descer pelo meu corpo, beijando-o, arrepiando cada poro,
cada partícula do meu ser. Os teus lábios em plena sintonia com o meu desejo,
como se nunca tivessem sido desconhecidos. Envolves-me, delimitando-me,
exigindo-me submissa, subjugada pela tua ambição lascívia de me fazer tua. Os
teus dedos encontram a medida exata da minha cintura, enquanto me puxam para ti
e deslizam, subindo até me circundarem o pescoço que roda para o teu rosto, na
súplica febril de quem já não sabe esperar. Beijas-me com agressividade e a
palma da tua (outra) mão pressiona-me num fervor meigo, sem me satisfazer. Com
um masoquismo atroz de quem comanda, a tua língua morna e cúmplice lambe o que
a tua boca anteriormente mordeu. Percorres-me sem segredos e calando os soluços
de ternura, finalmente… Volto a mim, sozinha, perdida na dimensão irreal do
passado, neste Braille da paixão que um dia escrevemos e eu não sei como
apagar.
(15416)
Chegou Setembro e afinal tu não estás. Mentiste-me! De ti
ficou apenas esta solidão insolente que me agasalha o corpo nú do toque arguto
das tuas mãos. Enquanto eu vou fugindo do enamoramento dos outros como uma
afronta ao legado de memórias que me doaste em tom de capricho, tornando-me
inábil ao teu esquecimento. Dedos entrelaçados passeiam-se pelas ruas,
trocam-se beijos cúmplices e sorrisos embriagados moram no olhar rútilo de quem
sabe que o que deseja vive grudado a si, emaranhado nas pernas entrelaçadas,
escondidas pelos lençóis mornos da preguiça de domingo. E eu soturna, raquítica e embargada
na minha inveja, roída da felicidade alheia pespegada virtualmente em fotos
insidiosas de intimidade e mimos, a querer rever-me na pirosidade das
confissões trocadas e nos lugares comuns do amor vulgar, ilustrado por aquela
ousadia cliché de roubar a ordem do tempo em lampejos de eternidade. Mas já é
Setembro e tu não estás. Será que também andas meio coxo arrastando-te em
sapatos desiguais pelas noites em claro? Ou já te curaste de nós, reavivado por
línguas ensonadas e as feridas devidamente lambidas na voraz excitação das
camas desconhecidas? Pé ante pé, os dias vão desvanecendo, no rasgar vago das folhas
do calendário. E no tempo agreste do Outono, tu tinhas que me doer.
(24914)
Falas-me de felicidade com um amargo de boca, como se de
repente, o meu sorriso te abalasse o suco gástrico e te sufocasse a
maçã-de-adão. Não te sobra nada, pavão tolo, do misticismo que te inventei, do
doce travo com sabor a pecado que um dia te senti. És lastimável, nessa tua
espécie de ser intelectual, uma fachada, que não passa de ar rarefeito. Nesse teu
sopro de decoro, cuspido em névoa, para que não vejam o deserto que és. Desengana-te. E não te
embrenhes em cegueiras de ego ressabiado, achando que o desprezo calculado me faz
comichões e chagas na pele. Nenhuma costureira nos salva o forro rasgado, nem
as bainhas assimétricas em pernas mancas. Entende, filósofo de algibeira. Se eu,
nada te digo, é porque nada me provocas e chegas até a ser adjeto nos meus dias
corriqueiros. Mas por muito que negues, (para ti) ainda sou um alfinete a
riscar-te o verniz, forçado em dedos entrelaçados, na perpetuação de um
braço de ferro infrutífero, no qual desfraldas as expectativas. Pesa-te tanto a
minha vida sem ti. Por isso, exortas a emoção numa frivolidade quase anedótica.
Nessa estéril tentativa de curares as insónias à volta do meu riso,
sistematicamente disparado, sem seres tu a fazeres-me cocegas.
(111012)
Músicas:



